| Djalma Batista Samuel Benchimol "Djalma Batista pertence àquela geração de pesquisadores que no pós-guerra se voltaram para a realidade amazônica, para decifrar o código genético de sua vocação, identificar as oportunidades emergentes, pesquisar ao vivo, nos arquivos e nos laboratórios as razões de nosso anacronismo e vocalizar as esperanças no seu futuro e nas potencialidade escondidas no coração da terra. Para melhor conhecê-la e amá-la e, sobretudo, para transmitir a sua mensagem aos mais novos que estão nos sucedendo na liderança regional. |
"Djalma Batista que trabalhou neste Instituto de pesquisas científicas, dignificando-o e dirigindo-o, desde muito cedo, antes mesmo de iniciar sua vida profissional, revelou suas preocupações com a pesquisa, notadamente os estudos sobre a Amazônia, que culminariam com a excelente análise de seu processo de desenvolvimento na obra "O complexo da Amazônia", publicada já próximo à sua morte. (...)Foi uma vida dedicada ao estudo, ao trabalho, à medicina, à família e à sociedade. (...)Nomeado diretor da divisão de pesquisas biológicas do INPA, em 1957, suas atividades referentes à pesquisa tomaram nova orientação. Consciente da importância de conhecer a Amazônia e sabedor das dificuldade a vencer pela falta de recursos materias e humanos, inaugurou na instituição uma política de preparação de mão-de-obra qualificada. Lançou-se num programa de bolsa de estudos para graduados, visando à formação de especialistas, mestres e doutores. Não satisfeito, foi mais longe. Criou um programa para formação de pessoal a nível de graduação. Jovens amazonenses, principalmente se já funcionários do INPA, recebiam complementação de seus estudos secundários em cursos pré-vestibulares fora de Manaus. (...)Uma vez aprovados, realizavam os cursos com bolsas de estudos. (...)Na frente de pesquisas, além dos trabalhos já em andamento, voltou-se para o interior do Estado. Depois de cuidadosa escolha, elegeu Codajás(...) (...)Como primeiro resultado, em 1959 publicou: Epidemiologia da Mansonelose em localidade do interior do Amazonas, com Nelson Leonardo Cerqueira, e Mário Augusto Pinto de Morais. O trabalho teve, em sua primeira fonte, os dados conhecidos sobre a epidemiologia da Mansonelose. Examinou 83% da população de Codajás, estudando 448 casos positivos, representando um índice de microfilaremia de 41,4%(...) (...)Em sua profícua atividade, não desprezou outras atividades. Assim, em 1948, publicou a conferência realizada no Teatro Amazonas (em 14.07.48), com o título: O Petróleo Riqueza e Futuro do Brasil.(...) (...)Devo encerrar estas recordações de Djalma Batista com referência a duas de suas obras. Uma do início de sua atividade profissional e, a outra, de quando já se aproximava o ocaso de sua utilíssima vida. (...)Em 1946, como médico em Manaus e Assistente da Santa Casa de Misericórdia, O Paludismo na Amazônia(...) (...)Em 1976, em sua última obra: O complexo da Amazônia: análise do processo de desenvolvimento(...) (...)Comparando-a porém com a anteriormente referida do início de sua carreira, podemos constatar a coerência de pensamento em 30 anos de estudos e trabalhos(...) (...)Este é o Djalma Batista que conhecí. Médico, cientista, professor, humanista. Homem sério, educador, caráter sem jaça, dedicado à família, à sociedade e ao trabalho. (...)Suas palavras sobre as ameaças embutidas no desenvolvimento da Amazônia constituem uma herança legada ao INPA e a seus pesquisadores, a quem compete decifrar a esfinge amazônica(...)" (Trechos da palestra do Dr. Afonso Celso Maranhão Nina sobre Djalma Batista - o cientista, proferida em 08.02.96, no INPA)Ozório Fonseca O Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia, INPA, foi criado em 1952 e implantado em julho de 1954, na cidade de Manaus, em parte, como uma resposta do governo nacionalista de Getúlio Bargas à idéia do Instituto Internacional da Hiléia Amazônica. O INPA nasceu, portanto, incorporando além das esperanças da ciência brasileira da época, também uma expectativa ideológica. O próprio diploma legal de criação espelhava essa idéia, pois definia como finalidade do novo Instituto: "o estudo científico do meio físico e das condições de vida da região amazônica, tendo em vista os reclamos da cultura, da economia e da segurança nacional". Esse desenho, quase sonho no entanto, esbarrou em enormes dificuldades, decorrentes do descompasso entre a configuração institucional do decreto e a realidade local. Essa realidade incluía a Manaus dos anos 50 que sofre com grandes deficiências na estrutura urbana, no atendimento à saúde, no sistema de transporte, no saneamento básico, nas comunicações, enfim uma cidade cujo nível de qualidade de vida não entusiasmava a vinda e a fixação de cientistas(...) (...) Era preocupante verificar que os aspectos negativos da região superavam o fascinio que a Amazônia sempre exerceu sobre os estudiosos da Natureza(...) (...) O equacionamento e solução desses problemas eram uma tarefa básica para permitir a implantação e consolidação do Instituto, tendo sido preocupação prioritária de Olympio da Fonseca, de Arthur César ferreira Reis, mas que só foi adequadamente encaminhada por Djalma da Cunha Batista(...) Ao assumir a Direção do INPA em 05 de outubro de 1959, Djalma Batista tinha dois desafios primordiais: garantir a permanência do Instituto em Manaus(...) e dar continuidade às pesquisas em andamento(...) (...) Surgiram, então, acordos de cooperação com o Museu Paraense Emílio Goeldi, de Belém; o Instituto de Micologia de Recife; a Escola Nacional de Química; o Instituto Agronômico do Norte, o Instituto Evandro Chagas, entre outros. Mas, nessa área da cooperação interinstitucional, o momento de grande lucidez e audácia foi o estabelecimento de convênio de colaboração internacional para um instituto criado como uma forma de impedir a internacionalização da Amazônia... Posteriormente, criou dentro do INPA um cursinho pré-vestibular, o primeiro da Amazônia com a finalidade de preparar os alunos para o vestibular em outros centros(...)Foi uma ousadia daquele homem pacato. Foi uma demonstração de coragem daquele homem fisicamente frágil(...) Os resultados não tardaram muito. Poucos anos depois, parte significativa do corpo de pesquisadores era constituída por esses jovens que retornaram para Manaus depois de concluir seus estudos e que foram contratados para desenvolver projetos de pesquisa e assumir funções importantes na consolidação do INPA. Sua coragem recebeu novo desafio nos primeiros meses do ano de 1964, quando uma série de fatos passou a ameaçar a vida institucional, e a estabilidade funcional. O corte orçamentário e as restrições financeiras atingiram não apenas o custeio das atividades de pesquisa, mas também os encargos socias(...) (...) Nesse contexto, Arthur César Ferreira Reis tinha sido designado para governar o Amazonas, e esse fato criou um novo alento, uma nova esperança. O novo Governador tinha livre trânsito no sistema, havia sido Diretor do INPA, conhecia profundamente os problemas institucionais e regionais (...) (...) A grandeza de Djalma Batista não foi suficiente para vencer a pequenez do processo de perseguição e calúnia dos anos de 1967 e 1968. Se fosse necessário escolher uma palavra marcante para sua administração o termo escolhido seria - Fé(...) (...) Djalma da Cunha Batista foi uma dessas personalidades raras que depositava uma crença profunda e autêntica no homem amazônico, no futuro da Amazônia, na dignidade, na justiça, na horadez, na nobreza do serviço público, na probidade administrativa, na ciência, na ética, enfim nos valores maiores da humanidade(...) (...) O INPA, a Amazônia, o Brasil, a Ciência devem muito a esse homem que foi um exemplar raro da espécie humana". (Trechos do artigo do Dr. Ozório Fonseca, Diretor do INPA em 1996, publicado no jornal A Crítica em fevereiro de 1996 e no livro "Djalma Batista, um humanista da Amazônia, da Editora Universidade do Amazonas, organizado pelo prof. José Seráfico, presidente da Fundação Djalma Batista). |
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